Adaptar Alice no País das Maravilhas – bem como sua continuação, “Alice Através do Espelho” – é um exercício de criatividade. A obra original de Lewis Carroll é um marco do surrealismo, então sentido, quando existe, é passageiro. Aqui, mais de meia década depois do primeiro filme, revisitamos o País das Maravilhas, que continua cheio de cor, beleza e pouco conteúdo.

Era 2010 e a Disney, após colocar nas mãos de Tim Burton a missão de adaptar a obra de Carroll para o cinema, lança “Alice no País das Maravilhas”. Como era de se esperar, o tom obscuro do diretor de “Edward Mãos de Tesoura” dominou a tela – e o filme conquistou as bilheterias, faturando o valor obsceno de mais de um bilhão de dólares. Assim sendo, é de surpreender que a Disney tenha demorado 6 anos para lançar a continuação.

Quando finalmente voltamos ao universo criado no cinema por Burton, algumas gratas surpresas nos esperam. A própria Alice (Mia Wasikowska) – agora mais amadurecida após passar três anos viajando o mundo – é uma personagem bem mais interessante desde que a vimos na última vez; a menina que era uma garota entediada com sua sociedade agora é a capitã do navio que era de seu pai, e salva sua tripulação de piratas enquanto volta de mares chineses. Neste ponto, “Alice Através do Espelho” é melhor que o filme anterior, e nos deixa desde o princípio dispostos a seguir a jovem exploradora.

Após as sequências na nossa realidade, Alice finalmente é levada para o País das Maravilhas, e por não ser necessário nos apresentar àquele mundo novamente, o filme pode se dedicar a viajar com mais calma – tanto literal quando figurativamente. Visualmente, portas nos céus e peças de xadrez vivas nos dão o tom lúdico do que está por vir; enquanto isso, a trama nos leva para viagens ao redor do País das Maravilhas e através do tempo, nos presenteando com um design de produção fantástico. Desde as casas que refletem seus proprietários às florestas que são sucessivas explosões de cores em cena, o filme é lindo se de admirar.

A história da continuação revolve em torno do Chapeleiro Maluco (Johnny Depp, sendo o Johnny Depp), que percebe que sua família pode estar viva. Após ninguém acreditar nele, o Chapeleiro entra em depressão, e aos poucos começa a desaparecer. Para salvá-lo, Alice precisará enfrentar o próprio Tempo personificado (Sacha Baron Cohen, divertido neste papel) para voltar ao passado e descobrir a verdade sobre a família do Chapeleiro.

Agora, se a Alice é o que tornava este filme melhor, tudo o que era instigante no filme anterior aqui parece, curiosamente, perder suas cores. A missão de resgate de Alice fica mais clichê quando ela precisa roubar a Cronosfera (…é realmente esse o nome) das mãos do Tempo; é aí que a personagem-título começa uma jornada sem sentido a qual o único propósito é mostrar o passado dos personagens e responder perguntas que nunca nos fizemos, nem queríamos saber a resposta; perde-se parte da magia quando descobrimos que o nome da Rainha de Copas é Iracebeth (Helena Bonham Carter), e fica bem inexplicável entender porque o Chapeleiro Maluco é daquela forma quando toda sua família é normal, só é ruiva. Quando tentam explicar a interessante loucura sem sentido, ela perde exatamente o elemento que a tornava divertida.

O alívio cômico, aqui, recai todo sobre o ajudante Wilkins, que, além de aparecer pouco, não aguenta o peso de 1h53 de filme. O único momento que se arranca uns risos é em uma cena em que vários personagens decidem fazer trocadilhos com o Tempo – daí se vê o nível a que chegamos. Isso aponta como o filme parece não saber se quer ser levado a sério ou não, se jogando num limbo de meias-piadas e seriedade pela metade.

Em suma, entendemos que é difícil extrair lógica de um livro surreal, mas também sabemos que um filme precisa se sustentar em si mesmo sendo minimamente. O filme é baseado no “País das Maravilhas”, mas o que mais queremos é que Alice fique na nossa realidade – o que indica que há algo de errado com o que estamos vendo. Neste caso, a profundidade de Alice e o espetáculo visual não disfarçam o fato de que este filme parece gritar que não precisava existir e que não sabe a que veio. “Alice Através do Espelho” dança sobre a linha tênue entre ser um bom passatempo e uma neutra perda de tempo.

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